Periodicamente reproduzimos alguns artigos publicados no Guesa Errante, o suplemento cultural e literário do Jornal Pequeno (e tornando a laureá-lo: único voltado para a nossa literatura). Citações estas que já foram autorizadas pelo editor do suplemento; o escritor Alberico Carneiro, que apenas pediu que não esquecêssemos de citar os devidos autores e fontes. Desta vez o Maranharte foi um pouco mais “atrevido”, reproduzindo a edição de Nº 213 (10 de dezembro de 2009) quase na íntegra - O porquê? Leiam vocês mesmos.
Editorial
Por mais que as evidências já tenham consagrado a Literatura como a forma de arte que projetou e projeta o Maranhão, tornando-o um Estado reconhecido nacional e internacionalmente em função de seus notáveis poetas, jornalistas, romancistas, ensaístas, críticos e cientistas, os poderes públicos, através de suas instituições culturais, insistem em ignorar essa tradição, negligenciando os compromissos e obrigações para com essa tradição cultural mais expressiva da maranhensidade. E mais uma vez, neste ano de 2009, a Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão deixa, inexplicável e injustificavelmente, de dar curso ao Plano Editorial Gonçalvesa Dias que, no ano passado, através de concurso literário, classificou, premiou e editou mais de vinte escritores, tendo ficado, inclusive, os livros prontos para serem lançados. Enquanto isso, descaracterizando-se o folclore maranhense, em sua tradição de cultura popular mais reconhecida, cria-se o Bumba-Ilha, tipo de Boi de trio elétrico, inclusive, sob o pretexto de divulgar o Turismo do Estado do Maranhão. Ora, me comprem um bode! , exclamaria o escritor mais inocente deste país, que insistem em manter como terra papagalorum, como se o povo maranhense quisesse ser alimentado por regurgitação, como pelicano. Pode-se, então, derramar uma dinheirama para diversão, distraindo o povo, quando se negligencia consuetudinariamente a Literatura. E o pior é que tal procedimento não é um vício de hoje. Basta prestar atenção e se constatará que os escritores, neste Estado, porque, com justa razão, sempre foram idologicamente aqueles modelos de cidadãos que os dirigentes das instituições culturais não têm como padrão, politicamente são de oposição a tudo que visa usar e premiar a ignorância ou a ingenuidade popular como massa de manobra. Sim, escritores e professores pensam e contribuem para que o povo pense, logo são indigestos ao controle e poder.
Nada contra o folclore, que é coisa nossa, mas tudo contra a descaracterização e os fins para que, suspeita-se, é usado. Por isso, na aurora dos 400 anos de Fundação de São Luís, é bom alertar a classe de escritores com aquela convocação irrecusável de Unamo-nos contra essa política cultural fascista do populismo e do protecionismo que já vai para três décadas de caveira de burro. Chega de usar o Folclore como trampolim eleitoreiro. Não é bom, é imperativo que o povo seja respeitado em suas tradições e não se deixe usar e desrespeitar.
E lembrem-se, os escritores que ora são lançados pelo Plano Editorial Gonçalves Dias não são safra deste ano de 2009. Muito pelo contrário, são o resultado de Projeto criado e executado pelo Núcleo de Literatura da SECMA/2008, constituído por Alberico Carneiro, Nauro Machado, José Maria Nascimento,Wilson Martins, Antonio Aílton e Zema Ribeiro. E o Guesa Errante tem o subido prazer de divulgar uma das melhores safras literárias dos últimos tempos, resgatada, nesta edição, pelos escritores Antonio Aílton e Ivan Pessoa. Deve-se conferir e dar os créditos a quem de direito. Pelo menos em Literatura o povo sabe e saberá quem é quem. Literatura não se faz com demagogia, mas com talento e invendível sacrifício.
CHAGAS VAL, FLAMES e FELIPE KALYMA: Poéticas imagens do simbólico
Antonio Aílton*
O escritor é um sujeito de certo modo sistemático, ele quer abraçar o mundo com suas palavras, reunir as coisas sob um dizer e um sentido que ele supôs achar, mesmo quando os elementos são diferentes ou díspares. É o que estou tentado fazer agora, com grande prazer. Acabo de receber três livros e um dever de casa administrado pelo querido mestre Alberico Carneiro. Um livro de poesia, um ensaio sobre um escultor maranhense e uma narrativa infanto-juvenil. E começo a namorar esses três livros, para sentir sua carne e ouvir o que eles me sussurram, para que ponham palavras na minha boca, para que minhas palavras possam dizer um mínimo de sua sagrada beleza. Eu tiro as sandálias, um livro, mesmo em tempos de “perda da aura” ou mesmo que muitos olhos o ignorem, é sempre um terreno sagrado: no meio deles há cardos e sarças ardentes, eles fluem, flamejam, eles nos ressignificam no voo para além da materialidade das folhas, e nos convocam: “que tu inflames!...” Eu começo a me achar: esses livros são completamente diferentes uns dos outros, mas há qualquer coisa de simbólico que une a voz que cada um traz de sua origem.
Um escritor deve começar do começo, e sempre partir de pés descalços.
Os três livros foram recentemente publicados pelo Plano Editorial SECMA – Prêmio Gonçalves Dias de Literatura. O livro de poesias Escritura do Silêncio é do poeta maranhense Chagas Val, poeta no sentido pleno da palavra, em vida e obra, cujo respeitável trabalho já perfaz quase quarenta anos. Autor de livros como Chão e Pedra (1972), Teoria do Naufrágio (1987) Floração das Águas (1992) e O Código do Vento (2004), dentre outros, tem suas publicações, na grande maioria, realizadas por via de concursos ou seleções de corpos editoriais, o que dá bem uma ideia do valor de seu trabalho. O
ensaio de Flames Lima tem como título A Temática Feminina na Produção Escultórica de Celso Antonio de Menezes. A autora, licenciada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA, vem construindo uma história nas artes plásticas maranhenses, através de exposições e pesquisa, naquele itinerário que este Maranhão de Deus permite a seus artistas. A Águia e a Coruja é uma ficção infanto-juvenil amorosa e alegórica de Felipe M. Kalyma, um estreante (salvo engano) já senhor de sua proposta.
Não gratuitamente, o prefaciador de Chagas Val é um artista plástico, Victor Rego, que também assina a capa do livro e que é muito feliz em captar o fluido universo imagético do poeta. A orelha do livro é do professor, editor e também poeta Alberico Carneiro, num texto, não sem motivos, encantado e encantatório, a que chamou Escritura do silêncio: a odisseia dos minúsculos. Explorando a leveza e a ternura com que Chagas Val construiu seu “projeto ficcional poético”, Alberico aponta o elo que o poeta constrói entre seres humanos e um fantástico microcosmo vegetal e mineral que desabrocha em fluidos folíolos que se iluminam, tenuíssimas sombras e dedos de ventos que despontam no vértice das manhãs. Segundo Alberico, “Chagas Val nos convida com sutileza e ternura a entrar nesse jardim do Éden, a percorrer as campinas, a meditar à margem dos cursos d’água, a perceber o nascer, o crescer e o desabrochar dos caules e dos folíolos, o abrir-se de uma rosa em pétalas, que com ternura doma a tempestade.”
Eu gostaria, entretanto de descer um pouco ainda essa vau, até o rio a que Val nos conduz, até esse reino aquático a que tudo pertence, mesmo os vegetais, mesmo o branco papel em cujo silêncio branco o poeta mergulha, ca-in-do, branco, branco na Vertigem. O que são essas flores que ele acha no fundo do silêncio, no fundo do universo que resgata para nos trazer à tona? Pura superfície de um espelho. “O ser votado à água é um ser em vertigem”, diz Gaston Bachelard. Dessa água límpida, de quem que só chega à terra (úmida) por via da água, o universo torna-se, então, jardim do mínimo, de uma natureza criança refletida, a que assomam os pequeninos e as pequeninas coisas: “inhos”, “zinhos”, “rinhas” e “rinhos”, brisas e ternuras de um mundo que é avesso do intempestivo, do ruidoso, do avaro, de qualquer desejo de grandeza, de poder ou império. Nesse universo, o homem nasce de novo, junto com o superlativamente minúsculo: “escassas poeirinhas,/ finíssimas como leves cicatrizes [...]” (Superfície); “um levíssimo traço de vento que atinge um raminho de luar” (Brisa); “ou fluidas franjinhas semeando-se na luz como um luar na relva.” (Chuva na relva)
Abro ainda mais um parágrafo – porque é preciso –, para descer ainda mais, agora na correnteza vertiginosa de um rio-hábitat, que o poeta constrói como “A casa da água”, sendo ele mesmo o ser da lingua
gem, isto é, a própria casa de seu imaginário constante. Nessa, que é a segunda parte do livro, Chagas Val movimenta um denso rio, ora amanhecido, ora silencioso, ora assassinado, mas que se comunica sempre em seu desejo de vida, às vezes como fragmento na metonímia de um copo d’água, que floresce sobre a mesa, às vezes como memória de auroras arcaicas, de um mundo esvaído, rio abaixo, rio afora, destino do mundo que se entrega nas correntezas heraclitianas. Que belo e admirável poema esse rio nos traz: As sonâmbulas boiadas... (Aí o poeta não deve nada àquela simbólica ontologia do Guimarães Rosa de Sagarana...). Contudo sabemos que este mundo de floração de águas já é narcísico. Não o narcisismo egoísta, que se separa do mundo para encantar-se consigo mesmo, mas o narcisismo cósmico, que vê o mundo como doação, através da qual recupera a sua própria imagem, e à qual, contudo, tenta conservar em seus abismos e vertigens, enquanto o rio passa – só eterno em nós.
E para não dizer que não falei das flores, passemos a esta flor flamejante, Flames Lima, na sua também delicadeza e suavidade – tive a oportunidade de conhecer, a algum tempo, como colega da Mostra Brasil + 500 Maranhão, no Convento das Mercês, lá pelos idos de 2000. Ou melhor, passemos ao seu ensaio A Temática Feminina na Produção Escultórica de Celso Antonio de Menezes. Por coincidência, foi justamente por via da Mostra que ela conheceu a obra de Celso Antônio, quando, trabalhando como monitora educativa, apaixonou-se pela obra desse artista praticamente desconhecido em sua própria terra, o Maranhão, e que já foi aclamado o maior escultor brasileiro, segundo estudos mencionados pela autora. Vale a pena trazer uma explicação da autora, Flames, que João Carlos Pimentel Cantanhede destaca em seu lúcido prefácio: “A escolha desse tema como pesquisa deu-se pela constatação de ter sido Celso Antônio um dos primeiros escultores a retratar a mulher com características nacionais. Mas, apesar de toda a relevância que a produção possui como registro artístico e iconográfico de uma época, ela é quase desconhecida em seu estado natal”.
Flames faz no livro um histórico da escultura feminina, uma breve abordagem da escultura feminina pré-histórica, fala do Brasil e da escultura modernista brasileira, passando, então ao autor: sua origem caxiense, seu início de carreira, seus anos em Paris – quando a produção e a temática, a técnica e a estética do artista se renovam por via de influência de artistas como Rodin, Bourdelle, Maillol e Wilhelm Lehmbruck –, para deter-se na apreciação das particularidades escultóricas relativas a um feminino brasileiro que o artista teve a ousadia de trabalhar: um feminino não idealizado, mais rechonchudo, mulato, mediano, rústico, de alma meio brincalhona, enfim, esse feminino telúrico, de quadris largos, seios fartos e alta genitália que é bem a imagem da brasileira. Nisso a lembrar aquela primeira imagem que traz Flames (aliás, muito feliz nessa escolha), a da primitiva Vênus de Willendorf, deusa da fertilidade, que, sem dúvida, está implícita em todas as esculturas femininas de Celso Antônio. Flames une, assim, o telúrico, o ctônico e o autóctone ao erótico vital, à dinâmica do fogo que arde sem se ver.
Não poderia,
por fim, deixar de falar da obra de Felipe Kalyma, A Água e a Coruja, embora não da forma que o livro merece, pois requer um estudo mais analítico e detalhado.
Importa num livro que ele seduza, que dê vontade continuar lendo até o final. Lendo a história de Cecília, uma coruja, que a partir de um encontro fortuito com Daniel, uma águia-pescadeira, são tocados pela necessidade de se verem cada vez mais, o que só pode acontecer no crepúsculo, pois ele tem o caminho do sol, e ela tem o caminho da noite. A bela história envolverá a família de Cecília, de pai doente e mãe doméstica, e que precisa ser sustentada por ela. Envolverá Harry, o sábio amigo de Daniel; envolverá as peripécias atrapalhadas e maquiavélicas de Ondaka, o rei águia-gritadeira; envolverá gangues de aves funestas e até um corvo perigoso, Lúcio Morales. Mas tudo acabará bem, e isso é o que importa.
Numa linguagem muito própria ao público a que se propõe, acostumado A Águia e a Coruja é uma alegoria que se utiliza dos seres alados e de o universo fabulístico de uma floresta à beira-mar que, sem retratar um local específico, espelha o nosso mundo, conseguindo falar do amor – idealizado e cinematográfico – e das relações humanas e mesmo de experiências sociais concretas. Lembrei-me outra vez de uma frase de Bachelard, que retrata bem a intenção do livro: quando um sentimento se eleva no coração humano, a imaginação evoca o céu e o pássaro.
As diferenças que separam esses três belos livros ficam, portanto, bem patentes, mas eles se tocam num outro plano: no sublime espaço do simbólico, dos elementos que unem homem e universo na experiência ao mesmo tempo cósmica e cotidiana do existir, que se expressa em sua plenitude no tenuíssimo silêncio da iluminação estética.
*escritor maranhense.
d’A Manguda de Flores & Labirintos
Ivan Pessoa*
(...)
Os homens têm medo do desconhecido, e por tê-lo, nada mais natural que representá-lo por meio de narrativas, registros orais e ditos proverbias, por vezes até para expulsá-lo, purgando-lhe caricaturalmente. É sobre o desconhecido fantasmal de mortos que intervêm no curso dos vivos, que trata o exemplar: A manguda de Flores, livro que ao lado de: As três princesas perderam o encanto na boca da noite do também maranhense Nagib Jorge Neto, versa sobre o modus vivendi do homem comum dessas paragens.
Conta-se que, misteriosamente, uma aparição trajando chambres compridos, com respectivas mangas muito largas, daí porque manguda, constantemente fazendo-se surgir próximo à igreja dos Remédios em São Luís, teria ensejado à crença em algo tão inusitado quanto horripilante.
Seguindo a mesma linha evolutiva, de um extremo que vem desde o persa Luciano de Samósata; com seu satírico: Diálogo dos mortos, até o mexicano Juan Rulfo, com seu romance: Pedro Páramo, a convivência entre vivos e mortos parece ser litigante em se tratando de literatura. Com a palavra Arimatea Coelho: “Flores era uma cidade atormentada realmente. As aparições da manguda, envolta em um lençol de linho branco, deixavam a todos os seus moradores desesperados.” (pg.37, A Manguda de Flores) Autran Dourado com seu: Ópera dos mortos, bem como Érico Veríssimo com seu: Incidente em Antares endossam a ideia de que as incidências do além em face do mundo dos vivos são mais constantes do que poderia atestar nossa vã filosofia.
Distanciados e
m função das particularidades individuais, mas acossados na mesma condição, os personagens partilham a mesma sina: esconjurar as aparições espúrias da manguda e congêneres, devolvendo-lhes ao bojo primordial do desconhecido. Como se a imemorial infância jamais tivesse se esvaído, cada personagem recomeça a contrapelo de sua maturidade, as mesmas perquirições de quando criança, com o respectivo medo do fantástico. Adúlteros, rameiras, agiotas, corruptos, todas as tipologias, todas as camarilhas, ainda que envolvidos nos mascaramentos da vida adulta, cedem às vacilações risíveis das crianças. Quintino, Guilhermina, Carmerindo, Zizi, dona Justina, Dagoberto, et caterva, a despeito da idade adulta, são como crianças em face da fantasia: “A alma de Carmerindo também não deixara a cidade em paz. Mesmo quando Dagoberto descobriu que Carmerindo na verdade era um bode preto, que vivia solto pelas ruas da cidade, ele continuou aparecendo da mesma forma como havia sido enterrado: com paletó e gravata pretos, camisa branca de tricoline, sapatos lustrosos de pelica.” (p. 37, A Manguda de Flores)
Como a lógica austera dos adultos, sempre cala, em se tratando dos limites daquilo que pode ser dito, pode-se pensar consequentemente que o fantástico, à maneira da poesia, ri descaradamente da pompa racional, como os fantasmas riem dos homens. Carregando-nos pelos arredores de uma cidade onde o tempo não passa, de tal feita que os mortos incidem sobre os vivos, levando-lhes ao reino delirante do fantástico, Arimatea Coelho não nos poupa o fôlego, afinal seu domínio poético lhe concede uma teia imagética tão viva, quanto entrecortante. A literatura se faz lâmina, e a lâmina se faz imagem.
Um dia, o poeta e naturalista romano Plínio, o Velho, ousou, à maneira de Platão, decidir o destino dos poetas, concebendo-lhes peremptoriamente como: monstrorum artifex, eternos criadores de monstros, urdidores de pesadelos. Com admirável habilidade, Arimatea Coelho, fazendo-se anfitrião do engenho poético, antecipa-nos, leitores, uma situação incomum: em que mundo estamos, no terreno movediço dos vivos, ou na quietude imorredoura dos mortos? Leia A manguda de Flores e descubra por si mesmo, antes que as luzes se apaguem.
II
Labirintos
(...)
Em seus Labirintos, Ubiratan Teixeira põe São Luís tencionada entre os extremos do real e do imaginário, das manifestações porosas de uma religiosidade originária versus uma religiosidade aculturada. Daí por que, assim admoesta Dom Justus às carolas da Igreja: “Segundo as tradições caríssimas ermãs, a devota figura que se dissolvera lá pelos confins da África, durante aquele embate de punição aos mouros sem fé, viera candidamente repousar seus fluídos etéreos, sob encantamento provisório, neste sítio consagrado a outro venerável súdito de Nosso Senhor; e aqui deveria permanecer purificando suas imperfeições, sem mais delongas, até o Dia do Juízo Final. Segundo é sabido e consabido, o encantado apenas ganhou restritas permissões para retornar à vida material, ou sob a forma de um imponente touro, que passearia sua figura imperial por entre os vivos, ou permaneceria em sono eterno nos subterrâneos da Ilha sob a forma de uma serpente, até que uma donzela nativa um dia a despertasse; e só. E nada mais se sabia, até essa versão m
arota, revelada por esse curandeiro nos pegar de ceroula na mão [...] E digo mais, atentas filhas de Maria que, diante dessa opção bastarda, o momento é de apreensão, reflexão profunda e decisões rápidas. Fomos colocados frente a frente a um desafio que não só nos questiona como dogma, como fere frontalmente a moral de nossas donzelas. Ou nos posicionamos como egreja zelosa e protetora, sem condescender ao tentador, ou caímos no descrédito materialista a quês está tentando nos arrastar esse pasquim aleivoso e aquele macumbeiro filho do tinhoso.” (p.39-40, Labirintos). Percebe-se que as maledicências pagãs de Negreiros, pouco a pouco enfraqueciam as certezas teológicas de Dom Justus, de modo que esta fraqueza reforçaria aquele antológico ensinamento contido no Evangelho Segundo Marcos: “Porque em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito.” (Marcos. 11:23) Como se pode ler nas Meditações de Descartes, a dúvida quando hiperbólica só poderia mesmo ser produto de um gênio maligno, fornecedor de tropos e ilusões, que levaria inevitavelmente à confusão da consciência. Ubiratan Teixeira, consciente ou inconscientemente, nos faz crer nos infortúnios de Dom Justus, que em estado tal de receio, da história ser verdadeira, lhe põe por vezes nos limites do risível. É como se o mundo racional, representado pelos discursos límpidos de Dom Justus a contrapelo da falação de Negreiros, se perguntasse atônito: mas se for verdade? O atestado fantástico do velho Negreiros, proporcionalmente vai encorpando-se no imaginário popular, de sorte que até nas refeições habituais como a janta, são direcionadas ao fato inimaginável: “ Debaixo de cada um dos altares das sete igrejas desta vila repousa em sono encantado a legião de Dom Sebastião, protegida pela serpente guardiã do grande mistério.’ Cantavam, ou contavam, desde priscas eras os guias turísticos da cidade, acrescentando: ‘ Esta serpente adormecida repousa ao longo dos subterrâneos da cidade.’ E todos sabiam, desde as primeiras letras assim como está no livro de B.B. Sá Vale, confirmado na grande obra do etnólogo Nunes Pereira, Lendas e Visões da Nação Maranhense, que, no dia em que a grande encantada fosse ferida de amor por uma donzela casta e pura, de descendência maranãnguara, o reino de Dom Sebastião voltará à superfície na sua fantástica glória com toda sua corte, séquito de guerreiros, serviçais e pajens – e os habitantes da ilha, por sua vez, mergulharão em sono encantatório, até que outro desencantamento ocorra e assim ora um, ora outro, pela eternidade dos tempos, ou até o planeta se dissolver em onda de energia e luz. Era essa a história que todos sabiam, donde a versão das não-donzelas era novidade para todos, gerando o alvoroço da Igreja e daquela sociedade conservadora e reacionária.” (p.47-48, Labirintos)
O clima irracional de um boato jornalístico ganha proporções tão inusitadas quanto os prognósticos de Negreiros, de modo a reorientar o sentido mesmo dos populares. Como se fosse um impulso atávico, os homens têm necessidade de hipostasiar suas frustrações e esperanças em um porvir não muito definido, o que origina consequentemente a religião e seus emissários. Em seu sentido mais apurado, essa necessidade encerra o sentido de transcendência, enquanto: subir além de. Por meio da narrativa, ora laicizada, ora erudita de Ubiratan Teixeira, que se faz presente ora nos rictos de Negreiros, ora nas vacilações de Dom Justus, só nos cabe, enquanto leitores, esta subida clandestina pelo imaginário do homem ludovicense, homem empertigado, ainda que temente, incrédulo, ainda que puro, homem que na visão de Dr. Durval seria: “ uma raça metida a intelectual como não havia em outro sítio do País.” (p.30, Labirintos). Que estes Labirintos nos engolfe a naturalidade ludovicense, sob pena de nos perdermos quando do dilúvio.
*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão